Por que desativei o meu Instagram
- Érica Cezar

- 17 de abr.
- 10 min de leitura
Se você tentou clicar no ícone de atalho para o meu Instagram, viu a seguinte mensagem: "O link em que você clicou pode não estar funcionando, ou a página pode ter sido removida".
Pois é, eu desativei a minha conta em janeiro de 2025 e até o presente momento, abril de 2026, ainda não voltei.
O ícone continua no site porque em algum momento eu retornarei, mas antes disso acontecer, quero esclarecer os meus motivos para ter saído e, consequentemente, te propor algumas reflexões.

POR QUE EU SAÍ?
Eu já não estava muito afim do Instagram há algum tempo. Já entrava, me "enauseava", sentia aquela preguiça de tudo que eu via e saía rapidinho. Fui viajar em dezembro e, diferente das outras viagens, não deu vontade de publicar nada. Tudo começou a parecer MUITO supérfluo... Num nível que eu já não estava mais tolerando.
Quando chegou janeiro, eu decidi prestar um concurso muito importante pra mim. Um concurso que eu "namoro" desde 2012 e para o qual eu sempre me preparei. Quando decidi que eu prestaria novamente, pela 4ª vez, a primeira ação foi sair do Instagram, afinal, eu teria que estudar MUUUUUITO. E assim foi!
A prova aconteceu em abril e o plano era voltar para o Instagram logo em seguida, mas, cada vez que eu pensava em reativar a conta, eu sentia um pesar (de peso mesmo) muito grande, então fui adiando, adiando, adiando... E cá estamos! 2026!
Antes, eu acreditava que o Instagram era FUNDAMENTAL para qualquer profissional, mas, pasmem, o fato de eu ter saído não mudou nada. Eu continuei recebendo pacientes novos, que me me achavam no Google ou vinham por indicação.
7 COISAS QUE ME CANSARAM NO INSTAGRAM
Bem, aqui começam as minhas reflexões sobre o Instagram. Vou separá-las em tópicos pra facilitar a nossa conversa. E eu vou generalizar, tá? Falar da maioria, mesmo sabendo que existem muitas exceções.

1 - MANIPULAÇÃO DA REALIDADE
Praticamente tudo no Instagram tem algum tipo de manipulação. Seja a melhor pose, a melhor iluminação, o melhor ângulo, o melhor filtro, o melhor sorriso. Quase nada é natural e orgânico. Tudo é produzido! Por isso o termo "produtor de conteúdo". Mesmo não usando o Instagram para trabalho, a maioria das pessoas está "produzindo" conteúdos.
Algumas pessoas se referem a essa manipulação da realidade como sendo uma falsidade, no sentido de publicarem algo que não condiz com a realidade. Independente do nome ou do termo que se use, as pessoas continuam manipulando a realidade (sendo falsas) e, PIOR, continuam acreditando na falsidade ou na realidade manipulada que é postada.
Elas pensam: "A pele da fulana é tão linda". "Fulano está tão bem no novo relacionamento". "Aquela moça começou a academia há tão pouco tempo e já emagreceu". "O marido daquele rapaz é tão amoroso". "Aquela mãe é tão melhor do que eu". "Aquele grupo de amigos é tão legal". "Aquela mulher se veste tão bem"...
O que as pessoas não sabem (ou não querem saber) é que a pele da fulana está revestida por uma maquiagem bem feita e por um filtro que deixa tudo mais bonito. O fulano posta fotos do novo relacionamento dele porque a namorada exige. Aquela moça que emagreceu está usando Ozempic. O marido daquele rapaz está sendo amoroso pra se redimir de alguma besteira que fez. Aquela mãe pode ser até melhor do que você, mas tem uma rede de apoio muito maior do que a sua. Aquelas pessoas são legais em grupo, mas, individualmente, não se suportam. Aquela mulher se veste bem, mas está com as faturas do cartão atrasadas.
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Minha análise? Sim, eu tenho uma: AS PESSOAS QUEREM ACREDITAR! Querem acreditar em tudo isso pra ter uma meta, um objetivo, um propósito... Precisam CRIAR E MANTER ESSAS ILUSÕES pra vida não parecer tão sem graça e pra não terem que lidar com O VAZIO DE UMA VIDA COMUM. Mas, acredite, ela (a vida comum) é a única que existe!
2 - TRENDS
De acordo com o Google, esse termo deriva da palavra inglesa "trend", que significa TENDÊNCIA, e indica algo que está "em alta" e é amplamente adotado ou consumido por muitas pessoas.
Enquanto eu estava no Instagram, essa era uma das partes que eu mais achava chata: entrar no Instagram e ver a mesma coisa publicada por todo mundo de uma vez só. Não só as "brincadeiras", mas os assuntos também. Todo mundo falando da mesma notícia, da mesma série, da mesma fofoca. Todo mundo postando os mesmos memes, usando as mesmas trilhas sonoras, ou entrando na mesma onda, tipo: "Como vou ser triste se...". Isso realmente me cansava.
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Na minha breve e resumida análise, eu acredito que as pessoas entram nessas ondas PARA PERTENCEREM! E pra isso, precisam fazer igual, ser "que nem" os outros. É uma forma de não ficar de fora e de não ser excluído.
3 - POLARIDADE / DUALIDADE
Você já ouviu falar em maniqueísmo? Maniqueísmo refere-se a um conceito dualista que divide o mundo em duas forças opostas e antagônicas: o bem e o mal, ou luz e trevas.
Pois bem, as redes sociais estão sempre cindidas, divididas entre duas forças opostas que não se suportam. É assim com a política (esquerda e direita), com religião (os que acreditam e os que são ateus), com as teorias (evolucionismo versus criacionismo), etc.
Ok, isso não é uma particularidade do Instagram, mas, pra mim, isso se evidenciava MUITO nas redes social. Vou dar um exemplo: algumas pessoas começaram a falar sobre educação positiva. Esse movimento cresceu, ganhou força e, algum tempo depois, começaram a surgir pessoas que não concordavam e, por isso, começaram a falar mal, desvalorizar ou menosprezar o tema. Logo esse novo movimento também cresceu, ganhou força e, de repente, muitas pessoas passaram a se mostrar FORTEMENTE contra a educação positiva.
Nesse tipo de situação, as polaridades vão se alternando no pódio e, pra isso, precisam se atacar o tempo todo.
Outro exemplo é quando vem um pessoal e publica "Como posso ser triste se..." e logo depois vem a galera do "Você pode ser triste sim, vamos dar lugar para os sentimentos negativos". E essa galera vem com força, fazendo publicações com veemência e passando por cima de quem entrou na trend. .
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Pra mim, essa é uma forma que a pessoa encontra pra mostrar autenticidade. Ela não entrou no efeito manada das trends, mas ainda assim PRECISA SER VISTA. É como se dissesse: "Eu estou aqui, hein! Não concordo com aquela parada lá, mas tenho uma opinião sobre ela. Deixa eu te convencer de que o meu ponto de vista é melhor". E aí eu pergunto: não dá pra só se abster? Tem que se posicionar sobre tudo? Tem que ser do contra? Parece que sim! Todo mundo precisa estar de algum lado, ter uma opinião sobre tudo e se posicionar de alguma forma.
4 - DISCURSO DA MERITOCRACIA
Uma das coisas que me irritava profundamente no Instagram era o discurso da meritocracia. Essa coisa do "Você não faz porque não quer", ou "Você só não consegue se não tentar", ou pior: "Se eu consegui, você também consegue!"... Acredite, as coisas não funcionam assim.
As circunstâncias não são as mesmas, as personalidades não são as mesmas, as oportunidades não são as mesmas, as condições não são as mesmas, a sorte não é a mesma... Logo, o resultado não será o mesmo. Pra uma receita dar certo, ela precisa dos mesmos ingredientes, das mesmas quantidades, dos mesmos equipamentos, da mesma temperatura, do mesmo tempo... E quando falamos de seres humanos, cada receita é única e irreplicável.
E não, não depende apenas do esforço. Não MESMO! Mas, infelizmente esse discurso está por aí, sendo difundido e fazendo as pessoas acreditarem que só está na pior quem quer. E, geralmente, quem diz isso tem uma solução mágica pra esse problema e irá vendê-la por um preço bem atraente ou muito alto. Mas, isso fica pro próximo tópico.
5 - VENDER A SOLUÇÃO
Só existe a Dipirona porque existe a dor, certo? Sim! A solução surge diante de uma demanda. Como é que aquele influencer poderia vender uma solução se não existisse um problema? Pois é, eles entenderam isso há milênios e estão fazendo as pessoas acreditarem que tem um problema pra, logo em seguida, oferecerem o produto ideal para resolvê-lo.
Primeiro, eles falam, despretensiosamente, sobre mães narcisistas e depois vendem um e-book pra ajudar as pessoas a identificarem uma mãe narcisista e a lidarem com ela. Primeiro, mostram as leis sistêmicas do Bert Hellinger e depois vendem uma constelação. Primeiro, falam sobre as características do TDAH e depois vendem o medicamento correto para as pessoas melhorarem.
E nesse processo, TUDO VIROU UM PROBLEMA! Você, seu corpo, sua mente, seus sentimentos, seus pensamentos, seus parentes, seus companheiros, seus filhos, seus amigos, seu carro, sua casa, até a caixa de areia do seu gato. Sim, te fazem acreditar que areia que você usa não é boa e que a solução é o tal do granulado higiênico.
Tudo bem existirem produtos, serviços, cursos, atendimentos e etc. para melhorarem a vida das pessoas, mas essa coisa de fazer elas acreditarem que o que elas são, tem ou usam está errado, é péssimo. É UM JOGO SUJO.
E a areia pro gato é o menor dos problemas. Tem gente saindo do emprego e passando aperto porque acreditou nas publicações que falam sobre os benefícios do empreendedorismo. Pessoas que passaram a ver o regime CLT como um fracasso e foram atrás de cursos (vendidos por quem prega a religião do empreendedorismo) para ter o seu próprio negócio.
Tem MUITAS mulheres se separando porque viram na internet a psicóloga dizendo que elas mereciam "coisa melhor". "Coincidentemente" (contém ironia), essa mesma psicóloga tem a plataforma dela onde você pode entrar e assistir as aulas sobre como se tornar a sua melhor versão.
Tem muito homem sendo um verdadeiro otário porque assistiu algum "Red Pill" dizendo que as mulheres são interesseiras e que eles não podem cair no joguinho delas. Homens que decidem, por exemplo, não se relacionar com mulheres mais velhas por ouviram que elas tem muita "bagagem emocional". Preciso dizer que os Red Pills estão monetizando com os canais no Youtube ou com livros? Acho que não, né?!
Fora a indústria da beleza, que te faz acreditar que a sua forma natural é lipedema, que as suas linhas de expressão são rugas, que a textura natural da sua pele pode ser corrigida com o skincare certo, que você não pode envelhecer, que os seus lábios tem que ser maiores, e depois menores, e depois mais contornados... E pra tudo isso, alguém criou uma solução.
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Vamos analisar? Existe um conceito muito importante na psicanálise que é a FALTA. E é nesse lugar (de falta) que as empresas e influenciadores encontraram terreno fértil pra fazer carreira. Na psicanálise, a falta é um conceito central que se refere à ausência de um objeto ou de uma completude plenamente satisfatória, sendo o motor do desejo e da subjetividade. Essa falta, no entanto, é parte constituinte do ser humano e nunca será preenchida. Na verdade, ela é necessária na medida em que conduz as pessoas à busca, à criação e à invenção de respostas singulares.
O que acontece é que as pessoas querem, enlouquecidamente, PREENCHER ESSA FALTA de alguma forma e, por isso, acreditam em cada promessa de que isso é possível. Mas, não é. Outro carro, outro país, outro relacionamento, outra pele, outra carreira, outro você... Nada disso vai preencher o vazio existencial que faz parte da sua condição humana. A falta sempre existirá e Jout Jout já nos mostrou isso no vídeo chamado "A falta que a falta faz". Vale a pena assistir!
6 - DIAGNÓSTICOS
De um modo geral, a internet virou um grande manual diagnóstico. Antes, tínhamos o CID 10 (Classificação Internacional de Doenças) e o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Hoje em dia, temos os sites de busca, os aplicativos de inteligência artificial e todos os blogueiros e influenciadores especialistas em diagnósticos.
Tenho certeza de que você segue alguém que te convenceu de que sua mãe é bipolar, ou de que seu marido é narcisista, ou de que seu filho tem TDAH, ou de que sua filha tem transtorno de personalidade borderline. Talvez, você também esteja convencida(o) de que tem um quadro de ansiedade generalizada e de que terapia comportamental é a mais indicada pra tratar os seus sintomas.
Novamente, a internet segue mostrando para as pessoas que tem algum problema com elas ou com as pessoas que fazem parte do convívio delas. As convencem também de que elas precisam de ajuda. Provavelmente, precisam mesmo, mas não para tratar desses supostos diagnósticos. A ajuda que eu mais tenho oferecido no consultório é pra que as pessoas se libertem desse monte de vozes que vão fazendo elas acreditarem que o normal é anormal.
7 - GENERALIZAÇÕES
Pra finalizar e, ao mesmo tempo, resumir tudo o que foi dito aqui, eu acho importante falar sobre a generalização. Como no Instagram os textos e vídeos precisam ser curtos, os conteúdos são todos generalizados. Então, é comum você ver aquele tipo de vídeo dizendo "Quem quer dá um jeito". Como se TODAS as pessoas do mundo não estivessem vindo até você, respondendo as suas mensagens ou saindo com você por falta de interesse. Como se todas as pessoas não estivessem comendo de forma saudável e emagrecendo por falta de força de vontade.
As generalizações não dão espaço pra subjetividade, pro particular, pro diferente, pro singular. Algumas pessoas vão desmarcar com você porque precisam mesmo terminar um trabalho. Algumas pessoas não vão querer ir a um primeiro encontro porque não estão se sentindo bem com o próprio corpo. Algumas pessoas não vão buscar um emprego porque estão deprimidas. Nem sempre tem a ver com a vontade. Entende que não dá pra generalizar?
Mas, então, porque as pessoas generalizam? Porque a generalização é mais precisa, objetiva e, além de tudo, costuma dar uma sensação de empoderamento pras pessoas. Tipo: "Se ele não ligou é porque ele não te quer. E se ele não te quer então ele não te merece!". É uma fala que tem muita força, raiva, agressividade... Uma fala que diz exatamente o que você quer ouvir, mesmo que seja uma grande ilusão, uma grande mentira ou algo sobre o qual não dá pra ter certeza alguma.
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O fato é que as pessoas têm preferido MENTIRAS AGRADÁVEIS A VERDADES DURAS OU INCERTAS. Assim é mais fácil. É isso e pronto! Dessa forma elas não precisam refletir, nem considerar, nem perguntar, nem compreender, nem esperar... A resposta está alí! Foi a psicóloga que disse. Foi o médico que falou. Foi a educadora que ensinou. Tudo fica sob a responsabilidade de alguém. Alguém que tomou algo como uma verdade absoluta e que segue disseminando essa verdade como se fosse a única e como se servisse pra todo mundo.
Mas, como diziam as nossas mães, NÓS NÃO SOMOS TODO MUNDO!

Bem, é isso! Espero que você tenha entendido os meus motivos e espero ter te ajudado a ver as redes sociais com mais consciência. Espero também que esse texto te ajude a se manter longe de muitas das armadilhas disfarçadas de ajuda e escondidas atrás de rostos acolhedores, carismáticos e convincentes. Quem cria um problema, dá nome pra ele e descreve as suas características está pensando apenas em monetizar a solução. O foco nunca é você. É o que a indústria farmacêutica faz brilhantemente, inclusive. Nunca se esqueça disso!
Logo eu volto!
Um abraço!




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