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Um tratado sobre a felicidade.

Certa vez, eu atendi um paciente que estava triste porque não conseguia ser feliz. Parecia estranho, mas, se você pensar bem, faz todo o sentido. Ele dizia que olhava para os mendigos na rua e eles estavam cantando, sorrindo, felizes... Não tinham nada, mas eram felizes. Enquanto ele, que tinha tudo, não achava graça em nada na vida. Ele me relatava os momentos simples em que poderia ser feliz e sofria por não conseguir ser. Eu nunca me esqueci do sofrimento desse paciente e, em vários momentos, eu me identifiquei com ele.


Talvez, todo mundo já tenha passado por situação semelhante... Você não tem motivos para estar triste ou infeliz, mas está! Aí você olha pro lado, percebe que tem alguém que deveria estar pior, mas não está! E esse tipo de situação faz com que a gente se sinta ainda pior. É claro que nem todo mundo que canta ou sorri é feliz, principalmente nesse mundo de aparências em que vivemos. Mas, de fato existem pessoas que são mais felizes do que outras, independentemente do que tenham ou do que sejam.


Minhas reflexões sobre a Felicidade:



O dinheiro e a Felicidade


Vocês já repararam que quando a gente olha uma pessoa rica e feliz a gente nunca questiona o motivo. Nós olhamos uma foto ou uma cena e pensamos: "Aquela pessoa é feliz!". E a explicação para essa felicidade parece clara: ela tem dinheiro, pode ter o que quiser, então, tem todos os motivos para ser feliz! O mesmo não acontece quando vemos uma pessoa pobre feliz. Nós nos perguntamos: "como aquela pessoa consegue ser feliz?"...


Pois é, inevitavelmente, nós associamos a felicidade ao dinheiro. Mesmo negando, lá no fundo, a maioria das pessoas acredita que se tivessem mais dinheiro, a vida seria bem mais fácil e, consequentemente, mais feliz. Mas, aí você se depara com pessoas que tem pouco dinheiro e uma felicidade inabalável, ao mesmo tempo em que conhece pessoas que podem ter tudo o que querem e, mesmo assim, não se contentam com nada e não conseguem ser felizes. Quando você percebe isso, fica claro que o dinheiro pode comprar coisas que deixam as pessoas felizes, mas não é capaz de comprar a felicidade.


Quando as pessoas se dão conta de que dinheiro não traz felicidade, elas então se perguntam: por que eu não consigo ser feliz? E entre os motivos mais recorrentes estão os seguintes: ou elas acreditam que alguém ou alguma situação tirou a felicidade que lhes era de direito (uma mãe rígida, um pai ausente, a morte de uma pessoa querida...) ou associam a felicidade a alguma coisa que está por vir, que está por acontecer (um casamento, uma viagem, a compra de uma casa...).


No primeiro caso, é compreensível que uma pessoa ou situação que fez mal a uma pessoa tenha impedido que ela fosse feliz, mas a pergunta é: até quando? Até quando um fato ou uma experiência negativa irá justificar uma vida inteira de infelicidade e sofrimento? Além disso, eu sei que adquirir ou conquistar bens materiais é gostoso, afinal, é para isso que as pessoas trabalham e se esforçam tanto, mas essas coisas não deveriam ter o dever de trazer ou gerar felicidade; elas deveriam apenas acrescentar felicidade na nossa vida. Deveria ser o tempero e não o ingrediente principal. 


Vendendo a Felicidade


Mas, não é assim que a maioria das pessoas pensam. Aliás, elas se recusam a acreditar que a felicidade não pode ser comprada. E as empresas e agências de publicidade já descobriram isso há muito tempo. Os produtos não são mais vendidos por suas características particulares (por tirar manchas, por ser saboroso, por ter qualidade...), eles são vendidos por causa das promessas que fazem... Promessas de liberdade, de independência, de beleza, de bem-estar e, principalmente, de felicidade. Você não compra um inseticida porque ele mata pernilongos; você compra para ter paz e tranquilidade. Você não compra uma margarina pelo sabor e teor calórico que ela tem, você compra por causa da promessa de uma família feliz reunida no café da manhã.


E as pessoas gostam tanto dessa falsa ilusão, que elas criam as suas próprias promessas de felicidade. Elas dizem para si mesmas: “você precisa encontrar um namorado para ir ao cinema, para se sentir segura e amada, e para ser feliz"; “você precisa comprar uma casa nova e bonita para poder convidar os amigos, para ter vontade de cozinhar e para viver feliz pro resto da vida”; “você precisa mudar de emprego para se livrar do seu chefe que te impede de ser feliz”, "você precisa comprar um carro para ser independente e desbravar o mundo descontraidamente". E esses pensamentos vêm acompanhados de imagens que ilustram a felicidade que a pessoa terá quando conseguir o que deseja.


Parece estranho, mas é exatamente assim que as pessoas imaginam encontrar a felicidade. Ou ela é vendida por uma empresa ou está associada a um objeto, pessoa ou conquista. As pessoas acreditam que ela está em um relacionamento, em uma viagem, em uma mudança, enfim... Ela está sempre relacionada ao mundo externo e ao tempo futuro e as pessoas realmente acreditam que vai funcionar; que um produto ou uma experiência irá enchê-las de felicidade plena. E, enche, na maioria das vezes, mas por muito pouco tempo.


O prazo de validade da Felicidade


Depois de um tempo, a felicidade que veio de brinde com uma pessoa ou produto começa a ir embora. O namorado que trazia felicidade agora é uma pessoa chata e irritante; a casa nova não tem uma vizinhança tão boa; as coisas no novo emprego funcionam do mesmo jeito que no emprego anterior; o carro novo é lindo, mas a parcela é tão alta que não sobra dinheiro para colocar gasolina. E por aí vai... O problema é que demora muito pra que as pessoas parem de procurar por pessoas, empregos, produtos e objetos que possam trazer felicidade para a vida delas. Demora muito para que as pessoas percebam que será sempre assim; que a felicidade que elas procuram fora, sempre irá acabar. 


Não espere a ausência de problemas para ser Feliz


Aí você se pergunta: mas então eu devo ser feliz e me conformar com o meu marido preguiçoso, com a minha casa caindo aos pedaços, com o meu emprego sem futuro? E a resposta é: não! Não se trata de se conformar ou se contentar com aquilo que não te faz bem, mas de aceitar que a sua felicidade não pode depender desses fatores. Por exemplo: você pode se separar do seu marido preguiçoso e ser feliz sozinha, ao invés de pensar: “preciso de outro marido que me faça feliz”.


Da mesma maneira, você pode buscar um emprego melhor, mesmo sendo grato e estando feliz por ter um emprego. Eu sei que parece complicado ser feliz diante de problemas e de situações que nos tiram do sério, mas sempre existirão problemas e situações que nos tiram do sério. Faz parte da vida! Então, se você não conseguir lidar com isso hoje, não conseguirá lidar no futuro. Não diz respeito ao mundo lá fora, diz respeito a você, à maneira como você encara os desafios e como avalia a sua vida de um modo geral. 


Não deixe a Felicidade para amanhã


Eu abro um parênteses aqui para dizer que não há nada de errado em se sentir triste ou em sofrimento. Existem momentos em que a felicidade se torna impossível de ser vivenciada, como nos casos de doenças e perdas significativas, por exemplo. O problema é que as pessoas sempre criam metas para que a tristeza acabe, para que o sofrimento vá embora e para, finalmente, serem felizes. Elas pensam: “meu sofrimento irá desaparecer quando eu encontrar um namorado”, “não ficarei mais triste quando comprar uma casa”, "serei feliz se conseguir ser promovida”... E quando elas conseguem realizar esses desejos, ficam realmente felizes por um tempo, mas, logo que a rotina é restabelecida, a tristeza surge novamente.


E aí, um novo ciclo se inicia e novas metas para a felicidade são definidas: “agora que eu tenho um namorado, vou ser feliz quando me casar”, “agora que tenho minha casa, serei feliz quando tiver todos os móveis”... Essas metas nunca acabam e a tristeza, frustração, desânimo e sofrimento sempre retornam. Isso acontece porque essa felicidade vinda de fora é tão artificial quanto o bem-estar causado por uma droga. É uma felicidade que tem efeito passageiro e que te deixa dependente. Dependente da pessoa que você acha que te faz feliz, dependente de fazer compras, de viajar, de comer, de mudar (de cabelo, de trabalho, de casa, de marido, de amigos...). Dependente de tudo aquilo que te traz uma felicidade que você não consegue sentir sozinho.


Onde encontrar a Felicidade


Durante essa busca constante por algo que as deixe felizes, o que as pessoas não percebem é que a felicidade existe sim, mas não do jeito que elas imaginam e, tampouco, nos lugares onde procuram. Ela não está lá fora, perdida no mundo. Não está com alguém que te fez mal ou com alguém que você acha que te fará bem. Não vem junto com uma compra incrível e também não está no futuro, onde você pensa que a encontrará ao ter tudo o que sonha. Ela está ...


Continua na próxima publicação. Segue o link abaixo:


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